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Do universo de silêncio a ser redescoberto
Postado por Thiago Miotto em quinta-feira, 25 de novembro de 2010.



De acordo com Murray Shafer em suas pesquisas mundiais sobre a "paisagem sonora", todos os anos o nível de intensidade sonora cresce a níveis alarmantes para nossa saúde.

A tecnologia e o consumo crescente, ao invés de trabalharem na direção de tornarem o mundo menos poluído, parecem rumar sem o mínimo de senso crítico e visão de futuro.

Na música, infelizmente, não é diferente. Quando olhamos para o século XX e este início de século XXI nos deparamos com um mundo e uma música cada vez mais ruidosa e muitas vezes totalmente desprovida de necessidade e auto-crítica.

Com a descoberta da gravação e da reprodução aliada à ascensão das mídias de massa (com seus ídolos fabricados, suas propagandas ininterruptas, e sua busca por enriquecimento e poder a todo custo (mesmo que para isso destrua a mente de gerações e povos inteiros)), o que era pra ser uma descoberta fabulosa da parte dos cientistas se tornou uma arma de manipulação e gestação de poluição e alienação em proporções antes inimagináveis.

Com isso, hoje ouvimos a grande música ocidental que se desenvolveu outrora por séculos (a música tonal) sendo deturpada, plastificada e vomitada na imensa parte das vezes para suprir demandas em torno de funções extra-musicais (criar um fundo sonoro que não permita um pensamento reflexivo - espécie de narcose e obsessão auditiva -, impedir o silêncio numa roda de pessoas, dar sustentação a ambientes onde se procuram parceiros e ou drogas, impelir pessoas a dançar ou se exercitar trespassadas por uma batida intensa e ininterrupta, tudo isso sem contar o enriquecimento nas custas da ignorância alheia por parte dos empresários, produtores e "músicos" (?) de modo geral).

Deixando as mídias de lado, que muitos já devem ter consciência das entrelinhas, as auto-denominadas vanguardas e a dita música experimental muitas vezes trilham um caminho parecido. Discordo em boa parte daqueles que vêem na necessidade do estudo formal a única possibilidade de renovação da música (libertação dos sons, das formas; em suma: das impressões, meios e expressões), mas discordo completamente daqueles que dizem fazer música a partir de um vale-tudismo sem o mínimo de auto-crítica e senso de onde e como estão se inserindo na música de nossa época e na história de modo geral. Aqui caímos no terreno incerto do delineamento, importância e embate entre música absoluta (a música pela música) e música descritiva (a que tenta descrever algo e gerar estados de espírito (levando em conta que os meios e a denominação são discutíveis)). Hoje já se tornou clichê na música de cunho especulativo e auto-denominada experimental haver "ruído por ruído" e "caos por caos" (em termos estruturais), clichês que, a meu ver, já perderam muito de sua força e necessidade em vista das décadas em que tal música é feita e da crescente intensidade sonora e geração de novos timbres em todo o mundo (seja ou não em se tratando de música).

Voltando ao geral, alguns pontos interessantes a serem levantados são, por exemplo:

1) Novamente de acordo com Murray Shafer nas "culturas primitivas" ao redor do globo se encontram 69% de sons naturais, 26% de sons humanos e 5% de sons tecnológicos; nos locais urbanizados atualmente se encontra curiosamente uma estatística que quase é exatamente oposta em relação à tecnologia no lugar dos sons naturais. A porcentagem é 6% de sons naturais, 26% de sons humanos e 68% de sons tecnológicos.

É óbvio que todo este mundo de sons reflete-se diretamente em nossa subjetividade e percepção (de si e do mundo).

2) A perda auditiva é inevitável e irreversível no ser humano; nascemos com um número fixo de células receptivas e as perdermos ao longo dos anos. Com essa taxa enorme de intensidade sonora a perda é maximizada e se mostra muito mais precocemente do que nas antigas gerações.

3) Como poderão perceber nos dois links que seguem, não há necessidade de criar uma música extremamente densa ou intensa (em termos de texturas e volume) para transmitir uma impressão forte e profunda. Se levarmos em conta os levantamentos de Shafer e o próprio voltar a si de nossos pensamentos em reclusão (tentando silenciar nossa mente), observaremos que há uma necessidade urgente de reaver momentos de quietude, instrospecção e afastamento desse mundo repleto de poluição e informação de todos os gêneros, além de rever nossos hábitos e modos de percepção que há muito quase sempre tornaram-se desprovidos de senso crítico.

No meio dessa loucura toda, felizmente das tradições à música especulativa existem mentes sinceras e conscientes de sua inserção na música humana e do atual estado e necessidades urgentes da humanidade. Gostaria de fechar este pequeno post (que, espero, levante possíveis reflexões e debates) com duas mentes na contramão do crescente ruído e coisificação da música humana. O primeiro link é uma música do compositor Arvo Pärt e o segundo é o link para o álbum The Sound of Zen de Atsuya Okuda, mestre na shakuhachi (um tipo de flauta de bambu muito utilizado na música tradicional japonesa e em determinadas práticas meditativas).


Arvo Pärt - Für Alina

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Okuda Atsuya - The sound of Zen

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O motivo das escolhas vocês compreenderão melhor ao penetrarem fundo nesses mundos de som e silêncio. Reclusão e busca por um ambiente calmo são altamente indicados.

A todos uma audição consciente.

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