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Improviso livre: o verso livre da música.
Postado por Thiago Miotto em quarta-feira, 31 de dezembro de 2014.
Deixo abaixo um texto da autoria de André de Castro de Sealand traçando um paralelo e reflexão comparando a improvisação livre musical com o verso livre em poesia.

"Acho muito engraçado quando ouço várias pessoas falando bem e achando totalmente aceitáveis na arte coisas como o verso livre da poesia e estilos de pintura como o de Jackson Pollock, mas, quando o papo é música, tornam-se os maiores reacionários da forma e atacam a música improvisada como sendo "amusical"... E olha que eu gosto da forma, escrevo até sonetos, villanelles, haicais, tankas, quadras, sestilhas... Mas também escrevo verso livre. E não é porque ele é livre que prescinde do ritmo. O ritmo existe, apenas é mais complexo que o das formas antigas, mudando constantemente de lugar e direção...

Gosto de usar a analogia da casa e das grandes vastidões quando comparo formas fixas poéticas com o verso livre: formas fixas são como uma casa: há paredes, cômodos com funções definidas e maneiras de se comportar na casa, mesmo sendo nossa. Afinal, não é lá muito comum quebrarmos a pia de nosso próprio banheiro ou da área de serviço, pelo menos não em ocasiões quotidianas... Além disso, a analogia da casa é ótima também para explicar que uma pessoa só se sente "presa" entre essas paredes se ela não souber fazer dela seu lar, mas sim uma prisão...

O verso livre, por outro lado, é como uma grande vastidão: um deserto, um oceano, um pampa verde e sempre inóspito, não importa quantos homens e mulheres o atravessem, não importa quantos cavalos e bois...

É mais desafiador percorrer essas vastidões? Claro que é! Deve-se estudar o terreno (sim, deve-se estudar o terreno, deve-se estudar o verso livre), fazer conjecturas, pisar aqui e ali para ver se não há areia movediça ou animais perigosos, desfiladeiros, inimigos e outros tipos de adversidades e obstáculos. Mas para todos os que praticam este tipo de forma poética é totalmente desnecessário dizer que as recompensas são magníficas: paisagens sensacionais e nunca antes - nunca antes mesmo! - percorridas, descobrimentos de novas terras, seres que o idioma ainda nem sequer nomeou! Talvez até o descobrimento de nós mesmos. E essa talvez seja a grande busca de todas. Afinal, Hegel nos diz que a tarefa da Arte é a de nos encontrarmos enquanto seres humanos nela. Nos encontrarmos em nossas próprias criações. E alguém pode se encontrar entre quatro paredes, em seu próprio quarto, como o narrador de Xavier de Maistre em Viagem ao Redor de meu quarto, ou como o herói de Homero, Odisseu, que chegou aos Feácios completamente só e exausto, depois de enfrentar o poderoso mar de Poseidon.

Pois bem, eu comparo as formas fixas da poesia com as formas fixas da música. Até porque, árias e outras formas musicais inclusive têm a mesma estrutura de rimas e outras características formais da poesia. Basta analisar uma partitura antiga: veremos a estrutura exatamente como a das rimas da poesia: AABB, etc...

Claro, música e poesia eram unidas, eram gêmeas siamesas na antiguidade.

No entanto, se a poesia evoluiu, conseguindo se libertar da tirania da forma, por que ainda muitos acham estranho quando ouvem música improvisada? O poeta ou poetisa hoje têm a liberdade de utilizarem formas fixas ou verso livre, às vezes até mesmo uma combinação de ambas para chegar ao resultado que só eles buscam, não raro seguindo o próprio instinto, sem saber exatamente o que querem, por intuição, pura tentativa e erro. Mas o acerto dessa tentativa e erro, se for feito com muito estudo, dedicação, sinceridade e, principalmente, honestidade, tendo sempre em mente o público, traz recompensas quase sempre inestimáveis para todos.

Tudo isso para dizer que eu entendo a música improvisada como o verso livre da música: continua tendo ritmo, continua tendo suas regras. Mas suas regras são bem mais difíceis de entender - como as regras do deserto ou do oceano. É preciso muito cuidado para não morrermos de sede ou afogados. Mas o risco é válido. Melhor do que ficar sempre em casa, tomando chá com Handel.

A música é definitivamente a arte mais reacionária de todas. E o improviso livre é o pequeno revolucionário, que já existia, livre pela Terra, antes da arrogância nomeá-lo como "tendo que pertencer sempre ao Reino X ou Y.

Por enquanto, a música como um todo ainda é vista pela grande maioria das pessoas como um reino despótico, uma monarquia totalmente absolutista, do erudito ao axé, do jazz ao funk carioca. Resta saber se nós, do improviso livre, conseguiremos fazer com que ela chegue pelo menos a uma solução de compromisso, a uma espécie de liberalismo musical, ou seja, um equilíbrio entre caos total e ordem, entre individualismo e a sociedade, enfim, entre uma música totalmente feita para o ego do artista, inescutável, e uma música ditatorial, sujeita aos modismos da sociedade, que nem ao menos sabe por que a consome. Chegaremos - já chegamos! - a esta espécie de caos coeso, a uma forma que possa ser apreciada e compreendida pelo público, compreendida de verdade, não apenas aquele tipo de aceno afirmativo de cabeça que muitos fazem diante de obras sem sentido, apenas porque não têm coragem de afirmar que o que encontraram é uma droga?

Não tenho dúvidas. Mas é preciso que tanto ouvintes quanto músicos pensem sobre essas questões."

(autor: André de Castro de Sealand)