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Postado por Thiago Miotto em terça-feira, 5 de agosto de 2008.
Entrevista Otomo Yoshihide


Otomo Yoshihide
Do «como» ao «porquê».
Entrevista por Rui Eduardo Paes.

Jazz.pt / 21 Julho 2008

Rui Eduardo Paes: Estarei certo se disser que a principal diferença da New Jazz Orchestra relativamente ao Ground Zero é a base jazz ter substituído a base rock daquele antigo projecto? Quanto ao resto, julgo reconhecer o mesmo tipo de características: acrescento de elementos de outras tendências musicais, abertura à experimentação, perspectiva de colagem (numa linha que me parece remontar a Frank Zappa e John Zorn) e o mesmo gosto por uma certa «extravagância». A ONJO e o Ground Zero são duas faces da mesma moeda?

Otomo Yoshihide: A distinção fundamental entre a ONJO e o Ground Zero não reside no facto de uma ser jazz e o outro rock, mas na diferença de gestão de ambas as bandas e na maneira como fazem a música. No Ground Zero, eu compunha toda a estrutura e os músicos improvisavam dentro desta. A actual ONJO dedica-se a interpretações improvisadas. Mesmo na parte em que se constrói a própria estrutura, esta é deixada a cargo da improvisação. As peças não passam do tema para a improvisação. Neste ponto, podemos dizer que se trata de uma metodologia muito próxima do jazz. Falando sobre Zorn e Zappa: tive realmente uma grande influência de John Zorn na década de 1980, mas infelizmente quase não tenho escutado Frank Zappa. Portanto...

A integração na orquestra de elementos «estranhos» às habituais «big bands» do jazz (a voz de Kahimi Karie, o sho de Ko Ishikawa, os objectos de Taku Unami, as sinusoidais de Sachiko M e a utilização que fazes da guitarra eléctrica), envolvendo a pop, a música tradicional japonesa, a música concreta, a electrónica e certos aspectos do rock, corresponde a que necessidades conceptuais tuas?

Sob o ponto de vista de uma «big band» de jazz, realmente o uso de sho, sinusoidais, voz e electrónica pode ser estranho, mas a ONJO não nasceu da tradição das «big bands» de jazz. Assim, não é correcto dizer que a música japonesa ou a pop são introduzidas na base jazz. Não coloco o jazz no centro do meu pensamento, estruturo-o. A música da ONJO está na sequência do choque da minha experiência musical com as de cada membro da orquestra.

Três anos depois do lançamento de «Out to Lunch», continuará a ONJO ligada ao repertório de Eric Dolphy e aos motivos típicos dos primórdios do free jazz, numa altura em que este ainda mal despontava do pós-bop?

Não estamos a interpretar apenas as músicas de Dolphy ou os clássicos do free jazz. Principalmente neste último ano, temos montado o esquema de cada dia de trabalho quase sem qualquer plano pré-estabelecido. É evidente que não negamos o Dolphy, e podemos executar algumas músicas do «Out to Lunch» em qualquer momento. O certo é que cada interpretação que fazemos da mesma composição do Dolphy é diferente de todas as outras, de tal maneira que eu próprio não consigo prever os resultados.

Que ecos te chegam no que respeita à recepção e à aceitação das tuas propostas jazzísticas? Sentes que te consideram um «outsider» ou achas que já foste aceite na «família do jazz»?

Bem, não sei. Não faço a mínima ideia, porque não leio revistas de jazz e também quase não tenho qualquer ligação com o círculo jazzístico. É evidente que me sentiria mais feliz se fosse aceite como um companheiro, em vez de ser ignorado... Mas na realidade, penso que não estou a ser ignorado, apenas que não sou conhecido por quase ninguém dos meios do jazz.

Axel Dorner, Mats Gustafsson e Cor Fuhler são os convidados especiais desta formação. Porquê eles? Que papéis lhes destinas na New Jazz Orchestra?

É porque os conheço bem desde há muito tempo e sinto uma grande simpatia por eles. Admiro-os como improvisadores, como músicos e como amigos. Na realidade, gostaria que fossem membros permanentes da orquestra, mas tal é impossível financeiramente e em termos da disponibilidade de cada um. Além de que moram em locais muito distantes. É só por isso que actuam como convidados, mas pessoalmente considero-os membros efectivos da ONJO...

Presentemente, utilizas a guitarra em contextos mais «idiomáticos« (jazz) e os gira-discos nas situações experimentais e em contexto electrónico. A alternância de instrumentos significa que te dividiste em duas áreas de intervenção na tua actividade musical?

De facto, divido-me em dois ambientes distintos, mas sempre tenho pensado em juntá-los. Gostaria que a ONJO fosse o contexto em que se cruzassem esses ambientes.

Disseste-me uma vez, noutra entrevista, que o importante não é o que se toca, mas como se toca. Explica-me que características deve / pode ter esse «como». Deverei entender que, por exemplo, não é tocar jazz que importa, mas como se toca o jazz?

O importante é interpretar sem se visar um determinado resultado desde o início. Porquê interpretar jazz? É esta pergunta, «porquê?», que realmente importa. Não é importante a forma como se interpreta o jazz, o que importa é porque se interpreta o jazz. Deste «porquê?» nasce o método...

Para um discípulo de Masayuki Takayanagi, um dos mais intempestivos guitarristas da história do free jazz mundial, possuis um sentido da subtileza e da nuance muito especiais. Inclusive, tens sido identificado com o movimento «onkyo», conhecido pelo seu minimalismo e pela forma como cultiva uma certa aproximação do silêncio, e isso não obstante seres também indicado como uma das personagens do chamado «japanoise». Aceitas pacificamente essa identificação?

A maneira como os outros me olham não interessa. Estou apenas a fazer a minha música conforme os meus temas e este facto é que dá, talvez, a impressão de que sou contraditório. A verdade é que estou farto de ser visto como pertencente a tal ou a tal categoria. Sou apenas um músico que se chama Otomo Yoshihide. Não sou nem mais nem menos do que isto. É assim que eu penso.

Fizeste algumas parcerias no passado com um músico português, «Carlos Zíngaro». Prevê-se que os vossos caminhos voltem a cruzar-se no futuro?

Ele é um violinista exímio e também um improvisador. Tocar com ele traz sempre algo mais para mim. Se o Carlos assim o desejar, terei imenso prazer em trabalharmos novamente juntos no futuro.

Para saber mais: www.japanimprov.com/yotomo/

Rui Eduardo Paes Tradução Japonês / Português: Hitoshi Kawauchi Colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian - Serviço de Música

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